21. As Histórias Militares de José Diniz de Seu Bino
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Data da publicação: 14/11/2007
Autor: José Diniz
Trabalhei na Aeronáutica de março de 1957 até os anos 90, prestando serviços em 17 organizações da Força Aérea Brasileira. Tive, nesse tempo de trabalho, muitos chefes diretos ou comandantes militares. Residi nas cidades de Guaratinguetá (Guará), Rio de Janeiro, Curitiba, Fortaleza, São Luiz, Anápolis, Natal, São José dos Campos e Brasília. Aqui no Distrito Federal, onde me fixei, pertenci ao Centro de Informática e Estatística do Estado-Maior da Aeronáutica. Minha última unidade foi adido ao GABAER, à disposição do Gabinete Militar da Presidência da República, no Palácio do Planalto – Serviço de Processamento de Dados.
No meu dia-a-dia na FAB, nunca tirei licença-especial, nem qualquer outra dispensa; nunca exerci missão fora do País, acho que vivi uma vida normal na caserna. Paralelamente, no decorrer desses anos de trabalho, por essas cidades afora, fui-me inserindo também no convívio social, construi uma família, por meio do casamento com Fátima Diniz e, depois, com o nascimento dos meus filhos: Síglia, Júnior, Fabíola e Carolina Raquel. Tive mais de 50 referências elogiosas, fiz centenas de amizades e não tive qualquer censura ou reprimenda durante a vida militar. O arrojo da disciplina castrense me permitiu fazer os cursos superiores: Formação de Oficial, em 1967; Administração de Empresas, 1975; Mestrado em Pesquisa Operacional, no Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA, em 1981.
Durante o período em que estive na FAB, fui agraciado com Medalhas Militares. Para não esquecer nenhuma, apresento cada qual, detalhadamente, abaixo:
Medalha Militar por Tempo de Serviço
Criada pelo Decreto no 4.238, de 15 de Novembro de 1901 e regulamentada pelo Decreto no 39.207, de 22 de maio de 1956.
A “Medalha Militar” tem como objetivo recompensar os bons serviços prestados pelos Oficiais e Praças da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, em serviço ativo.
Medalha “Mérito Santos-Dumont”
Criada pelo Decreto no 39.905, de 5 de setembro de 1956, alterada pelo Decreto no 66.815, de 30 de junho de 1970 e regulamentada pela Portaria no 106/SCC, de 20 de fevereiro de 1998.Personalidades civis e militares, brasileiros ou estrangeiros, podem receber a medalha “Mérito Santos-Dumont”, desde que tenham prestado destacados serviços à Aeronáutica brasileira, bem como por suas qualidades ou seu valor, também em relação à Aeronáutica.
Ressalte-se, que apreciação do mérito dos militares e civis em condições de serem agraciados fica por conta do Conselho do Mérito Santos-Dumont.
Lembro também das promoções que recebi. Coloquei-as em forma de quadro para melhor visualização.
Na Aeronáutica vivi emoções e alegrias como, por exemplo, a aprovação para a Escola de Oficiais – EOEG; o vestibular da Universidade do Ceará ou mesmo o Mestrado em Pesquisa Oficial do ITA. No entanto, acho mesmo que o marco mais importante da minha história militar começa no concurso que fiz em novembro de 1956, em que mais de 45.000 candidatos se submeteram aos exames de seleção para ingressar na Aeronáutica.
No dia 15 fevereiro de 1957, eu voltava tranqüilamente do interior do Ceará e, já em Fortaleza, alguém me disse que eu havia passado nos exames da FAB e me mostrou a publicação do edital no jornal, com cronograma dos exames médicos e data de embarque para a Escola. Era já noitinha; mesmo assim, fui me apresentar à Base Aérea, logo recebi umas boas “broncas” por estar atrasado e não tomar conhecimento do edital. Fui rapidamente encaminhado ao Serviço Médico da Base, onde deu início uma série de exames médicos que foram efetivados naquela noite e transcorrendo durante a madrugada. Ali, de vez em quando, alguém dizia:“Você sabe que tem que viajar logo para Guaratinguetá? A saída está prevista para 4 da manhã do dia 17 de fevereiro, o avião vem só buscar vocês.” Acho que a melhor resposta naquela hora, diante de tantas novidades, ainda era ficar em silêncio e pensar em Deus e nada mais.
Como na vida castrense as coisas são muito “definidinhas”, aprendi logo que para todo e qualquer evento militar, precediam-se os dados: dia, hora, local, traje e meios de transporte. Pois bem, eram precisamente 4h da manhã de 17 de fevereiro de 1957, e o ônibus da Base Aérea estava nos levando ao pátio das aeronaves, nas proximidades de um hangar; e, em nossa frente, como se estivesse sendo apresentado, o “possante” avião B-25 da Escola. Estavam presentes na tripulação três militares: um Major, um Capitão e um Sargento; também estava presente um Sargento da Escola. Ouvi de um dos oficiais: “Sargento, faça a chamada e mande embarcar os 18 candidatos”. Iniciava-se a chamada e a ordem para a acomodação, subindo pela escadinha, embaixo do avião para o acesso ao interior da aeronave.
Já dentro do avião, outro militar mandava que nós sentássemos um ao lado do outro nos bancos de lona laterais e nos bancos da frente. Ao meio, tinha algumas hastes de ferro infincadas na parte metálica da estrutura do avião para se segurar.
Como estava previsto, às 4h 30min o avião decolou da pista do Aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza. Com a decolagem, começa também a minha emoção do primeiro vôo: “friozinho na barriga”, muito frio dentro e fora de tudo ali. Sentia que não era mais eu: era uma máquina que, conduzida por homens experientes, nos levava rumo às nuvens. Barulho dos motores, luzes ofuscantes da máquina, a sinalização da pista, depois a cidade que, aos poucos, ia ficando para trás. Conversações em inglês dos pilotos com a torre de controle... Sentíamos algumas manobras, direita, esquerda e subida, subida e cada vez mais subida, impactos em nuvens, depois estabilidade e vôo numa só direção. Às vezes, atravessávamos algumas chuvas, íamos nos acostumando com as turbulências, aqui, ali e acolá. Inicialmente, um silêncio “danado” entre nós, mas, aos poucos, fomos conversando e conhecendo cada um ali, nomes, histórias de sua cidade e sabíamos que a pessoa daquela conversa, também estava fazendo o seu primeiro vôo. Durante aquela viagem, observava-se um belíssimo sol, bem avermelhado, que começava a surgir, à esquerda da nossa aeronave. Durante as conversas, aos poucos, fomos descobrindo que o nosso trajeto era vôo direto, Fortaleza–Salvador, com altitude de cerca de 9.000 pés, velocidade 400km/h e duração de 2h 15min. O pouso seria lá pelas 07h45, na Base Aérea de Salvador.
Pousamos em Salvador no horário previsto, mas devido a um pequeno problema no avião, houve atraso para a saída no horário seguinte. Depois de resolvida a pane, o B-25 decolou novamente, por volta das 13h00; vôo direto de Salvador para Guaratinguetá, chegando ao destino por volta das 16h25. Lembro do forte frio que fazia no avião durante todo trajeto. Mas nunca me esquecerei do frio intenso de Guará, como era chamada, carinhosamente, pelos alunos aquela cidade paulista. Um sol amarelado parecia fazer aumentar cada vez mais a friagem. Ali, próximo de onde estacionou o avião, já estava o ônibus da Escola, que nos transportou até o local onde estava a comissão de recepção. Após a chamada e as recomendações de praxe, fomos conduzidos aos alojamentos militares; daí em diante nós éramos chamados “encostados” e nos juntávamos ao grupo maior, formando 550 “encostados” vindos de todo país.
Aos poucos, tomávamos conhecimento também que ainda tínhamos que passar pela revisão médica da Escola, antes de sermos incluídos como alunos. Ouvia-se também falar de uma “peste denominação dos encostados” de um Doutor (omitido o nome por questões éticas), que costumava reprovar os “quase alunos” e não era chegado a nenhum diálogo com os “encostados”. Na realidade, era mais um redutor dos candidatos aprovados e que, aos poucos, nos limitava ao efetivo previsto no plano para aquela inclusão na FAB, que era tão-somente 500 daqueles “encostados”. Nossa turma foi incluída em 1o de março de 1957 e foi apelidada de “ Turma dos 500”. Cerca de dois anos depois, nós estávamos sendo formados na Escola de Especialistas de Aeronática, mas a turma havia sido reduzida a uns 320 Sargentos Especialistas. A partir de então, eu passava a ser o Sargento Escrevente Diniz (uma espécie de Assistente de Administração da Aeronáutica) e fui classificado no Quartel General da Terceira Zona Aérea, hoje III Comaer, unidade com sede na cidade do Rio de Janeiro.
Para reavivar a memória de nossos leitores, lembramos que a Aeronáutica foi criada em 1941 e logo se tornou, no País, o berço da Aviação Civil Brasileira. O Centro Técnico Aeroespacial e seus Institutos: Instituto Tecnológico da Aeronáutica, Instituto de Aeronáutica e Espaço, Instituto de Estudos Avançados, Instituto de Fomento e Coordenação Industrial, ainda hoje, são conhecidos sobejamente como importantes pólos de desenvolvimento do Parque Industrial de São Paulo. A FAB tem sido, ao longo da sua história, uma “espécie de laboratório” de excelência nas áreas de pesquisa aeroespacial, recursos humanos, tecnologia da comunicação junto aos demais segmentos da tecnologia de ponta do País.
Foram esses fatores e ainda os são hoje, que me deixam bastante envaidecido de ter prestado serviço por mais de três décadas à Força Aérea Brasileira. Exercida essa jornada de trabalho, hoje estou na posição de inativo da Aeronáutica. Uma jornada desempenhada com muito orgulho e determinação. Se necessário fosse, repetiria tudo de novo.
Autor: José Diniz é militar aposentado da Aeronáutica, Pós-Graduado pelo ITA. Foi secretário da Comissão de Construção da Base Aérea de Anápolis-GO, chefe do Departamento de Processamento de Dados da Presidência da República (1988 – 89) e diretor da Faculdade Alvorada de Brasília.