Data da publicação: 02/11/2007
Autor: José Diniz
Em 1952, saí do Sítio Canadá para morar na cidade de Cedro. Era uma mudança assustadora, pois ia ficar “longe” da minha família, cerca de 12 km.
No auge dos meus 13 anos, aquela distância era enorme e as únicas formas de vencê-la eram a pé, o que era um grande sacrifício, ou a cavalo. Parecia que estava abandonando um pedacinho da minha existência, tudo que estava acostumado: a ordenha de animais; a vida e costumes do campo; viver no aconchego do lar. Portanto, teria que enfrentar o novo: a cidade que me parecia pequena e grande ao mesmo tempo.
Tudo ali me parecia ser diferente da roça: as pessoas, que sempre estavam mais bem compostas; as casas comerciais; o mercado; a Igreja; a pracinha ajardinada e com bancos e o trem, que chegava fazendo aquele barulho e aquela festa, mas depois partia, deixando a gente com a alma e o coração alhures! E a parentada! Eich! Era o que não faltava, por todos os lados.
Na foto, exceto a esposa de Plácido, Olívia, todos têm os avoengos Manoel Passos e Maria Inez e Cândido da Costa e Maria da Conceição, que viveram nos anos de 1800, nos sítios dos sertões do Centro-Sul do Ceará. As pessoas adultas dessa foto nasceram nas três primeiras décadas do século passado (1900-1930); e algumas foram casadas com seus primos de primeiro ou de segundo grau: Guedinha e Seu Bino; Mundinha e Carlos Moreira; Toinha e José Viana; e Bezerrita e Vicente Viana.
A história de minha mudança para a cidade me é muito significativa e teve início no dia em que José Viana foi visitar Guedinha, minha madrasta, lá no Sítio, e me viu chorando, então, perguntou à irmã: – Por que esse menino chora, Guedinha? Ela lhe respondeu: – É porque quer estudar e não tem mais escola pra ele aqui. – Então, vamos resolver esse problema, disse o irmão, mande ele para minha casa, em Cedro. E assim tem início esta minha história.
Fui para casa de Zé Viana e Toinha, em Cedro, um casal de gente boa. Ela então cuidava bem de tudo, família, casa, e tinha por mim a mesma dedicação que tinha por seus filhos. Num determinado dia, ouvi choro e vi lágrimas que escorriam no belo rosto da minha prima, Maria Valdenice, que chorava porque queria ir continuar os estudos em Fortaleza, um caso semelhante ao meu que ainda estava por ser solucionado.
Um fato curioso aconteceu: alguém da famíla que já residia na capital cearense soube e convidou a moça para morar e estudar na cidade ali. E, hoje, Maria Valdenice é uma das dotouras da família, casada com o Dr. Francisco de Assis Bezerra Gonçalves, eles têm quatro filhos já formados: Adriano, Alexandre, Cândida e Camila e moram todos em Fortaleza.
Aos poucos e ainda assustado com o novo, fui me acertando nos estudos preparativos para os exames de seleção do Senai, a única escola técnica da cidade. Meu principal objetivo era ingressar naquela escola, pois me eram asseguradas algumas vantagens: o ensino profissional em nível de primeiro grau (algumas disciplinas até 2º. grau), o café da manhã e o almoço, o que de certo modo já minimizava meus problemas em Cedro. Mas ainda teria que jantar na casa de Toinha Viana ou na casa de Tio Azarias (irmão de meu pai). A dormida era para ser na casa de Vicente Viana, pois eu fazia companhia ao primo e amigo, durante a ausência de seus filhos e esposa. A esposa, Bezerrita, e as crianças ficavam envolvidas com os estudos durante a semana em Crato, e só voltavam nos fins de semana. Portanto, eu e Vicente éramos os guardiões da residência, ali. Nos feriados e nos fins de semana, eu me juntava aos meus familiares para cuidar das tarefas da roça no Sítio Canadá.Fui aprovado na seleção e entrei para o curso de Carpinteiro Eclético em 1953, que durou dois anos. O Senai era uma das escolas mais famosas do Ceará. Na ocasião, só havia no estado três ou quatro desses estabelecimentos, que funcionavam em Fortaleza e em algumas das cidades do interior. Acredito que o Senai me serviu de base para a continuação dos meus estudos, inclusive no preparo para o concurso para ingressar na Aeronáutica, em 1957, onde permaneci por quase quatro décadas.
A educação que recebi era consistente em disciplina, estimulava a minha integração com os outros e minha persistência em alcançar meus objetivos. A religiosidade tinha que estar sempre presente na caminhada da vida. Dona Guedinha (enaltecendo a minha inteligência de criança boa – tudo de bom sai do coração dela) conta que quando eu tinha quatro anos, alguém lá no Síto Canadá tentou me confundir dizendo: “Ela aí não é a sua mãe, sua mãe já morreu”; e eu, numa bela pronta-resposta, respondi: “Minha mãe faleceu, mas meu pai comprou outra”. Acredito que a resposta foi por causa do bom relacionamento, que já existia, entre os quatro filhos do primeiro casamento de Seu Bino e Maria Cleta e os filhos do segundo casamento de meu pai e Guedinha. Manja! Essa criaturinha é pessoa paciente; sempre muito cheia de amor, sabedoria, infinita bondade e grande religiosidade! Hoje, Dona Guedinha está com 91 anos, reza diariamente o terço, que é oferecido às almas e aos anjos-da-guarda de toda a família.Eu gostava de ouvir conversas das pessoas mais velhas; costumava ir conversar com o Sr. Antônio Guedes, que morava em Cedro, com a filha, Mundinha Viana, irmã de Dona Guedinha. Ali, na casa de Mundinha, era o melhor ponto de encontro dos Viana: filhos, netos, e da parentada toda do “coronel Antônio Guedes”, como era tratado, respeitosamente. Também gostava de conversar com meu pai, Seu Bino, e outros parentes: tio Azarias e Vicente Viana; apreciava e muito as piadas, divertidíssimas, de Araken Aguiar. Tia Gonçalves era uma pessoa graciosa e boa ouvinte; Gabriel Diniz era um homem de poucas conversas. Dona Guedinha era muito amiga da irmã Francisca, casada com Celso Araújo. Eu me aproximei muito dos filhos daquele casal. Décadas depois, fiquei mais amigo ainda de Tereza Viana de Celso, pois ela se casou com um oficial amigo meu da Aeronáutica, Coronel Ney Noronha. Enfim, tinha a amizade da parentada toda da cidade: dos Viana, Diniz, Araújo, Bezerra, Aguiar, Costa, Moura; nós ali éramos a grande massa da população de Cedro.
Continuando, conheci os 4 primeiros Prefeitos de Cedro: João Cândido da Costa, José Gabriel Diniz, Joaquim Alves dos Santos e Francisco Silveira de Aguiar. Lembro também de Cedro no final da década de 1940 e na década de 1950; um lugar que mais parecia uma “pequena grande cidade”: tinha três indústrias de beneficiamento de algodão – nosso ouro branco; o Senai; um pequeno parque de manutenção ferroviário; uma grande cooperativa agrícola; estrada de ferro com entroncamento Ceará e Paraíba; uma animadíssima feira comercial aos sábados, que se integrava à agitação dos negócios da cidade; e mais de vinte engenhos de cana, que faziam rapadura e derivados, espalhados pelos sítios do município.
Aos sábados, Cedro “inchava”, à população da cidade se juntava uma outra que vinha em seus cavalos, mulas ou jegues ou que, em comboio, trazia produtos agrícolas para comercializar na feira. Alguns guardavam seus animais nos quintais das casas de parentes e outros usavam os locais que se podia chamar “estacionamentos de animais”. Centenas de animais ficavam ali enquanto seus proprietários tratavam dos seus negócios. Atualmente, as áreas agrícolas do município de Cedro e dos demais municípios daqueles sertões do Centro-Sul do Ceará estão muito “largadas e improdutivas”, acho que não é só impressão... Não temos um modelo de produção para a agricultura como antigamente... não sei, também parece que as chuvas estão mais escassas um dos fatores que deixa mais evidentes as estiagens e as secas naqueles sertões...
Em 1957, ingressei na Aeronáutica, fui cursar a Escola de Especialistas da Força Aérea, em Guaratinguetá, e daí, então, foram muitas mudanças e moradias: Rio de Janeiro, Curitiba, Fortaleza, São Luiz, Anápolis, Natal, São José dos Campos, e, finalmente, Brasília, onde fixei residência, definitivamente.
Hoje, penso que a minha saída do Sítio para a cidade de Cedro, em 1952, fora apenas uma pequena exercitação de “mudança”.
Brasília, 2 de Novembro de 2007
José Diniz, Autor deste Artigo, é Coronel aposentado da Aeronáutica, pós-graduado pelo ITA. Foi secretário da Comissão de Construção da Base Aérea de Anápolis-GO, chefe do Departamento de Processamento de Dados da Presidência da República, e diretor da Faculdade Alvorada de Brasília, entre outros cargos.
Email: diniz52@gmail.com

