2. Seu Bino – Um Homem à Frente de Seu Tempo

Data da publicação: 23/09/2007

Autor: Luiz Viana Diniz

        É sempre muito difícil falar das pessoas que amamos sem nos deixarmos envolver por uma forte emoção; especialmente, quando o discurso se permeia por lembranças de um passado nostálgico, pela saudade e pelas amarras do vínculo de paternidade. Tais sentimentos tornam, sem dúvida, laboriosa esta tarefa. Tentarei, todavia, me desvencilhar das armadilhas deste turbilhão de emoções para traçar um perfil daquele que nos foi caro, precioso, sábio e sereno: Vicente Balbino Diniz, carinhosamente chamado de Seubino.

        Tendo sido agricultor, cedo aprendeu a lidar com a terra, 
naquilo que lhe é mais complexo e valioso: o solo, o qual produz o alimento que nos dá a vida. Tinha conhecimento e intimidade no manejo da terra, em especial daquele seu pequeno torrão denominado sítio Canadá, de onde, heroicamente, conseguiu tirar o sustento de seus dezoito filhos, a partir de uma agricultura e pecuária de subsistência, realizadas em terra totalmente encravada no semi-árido nordestino, sujeita, portanto, às intempéries deste clima – notadamente, ao terrível fenômeno da seca, que a tudo destrói.


        Inserto neste cenário, no qual o homem e a natureza desencadeiam diariamente lutas titânicas para manutenção da vida, nosso pai logo adquiriu mecanismos para enfrentar o desafio de viver naquele sertão, quente, seco e pobre. Era um homem à frente de seu tempo, pois tinha consciência de que, para obter o sustento de sua família, naquela terra inóspita, era imprescindível respeitá-la e não degradá-la. Assim, cuidava muito bem do solo, adubando-o periodicamente, evitando deixá-lo sem cobertura vegetal; não realizava desmatamento desnecessário e não permitia escavações durante o inverno, para evitar a erosão pluvial.

        Portanto, já naquela época, quando nem se falava em preservação e conservação do meio ambiente, ele já as praticava. Era também um homem aberto às novas tecnologias, haja vista que também realizava uma agricultura orientada pelos órgãos de extensão rural do Estado do Ceará. Até os anos sessenta o cultivo de cana-de-açúcar, com a finalidade da produção da rapadura, era uma atividade agrícola praticada extensamente, por aquelas plagas, e o sítio Canadá, por sua vez, não fugiu à regra. O processamento da cana-de-açúcar, com o objetivo econômico, foi realizado naquele sítio até o dia em que, em decorrência das leis que regem o mercado, o produto mostrou-se economicamente inviável.

        No entanto, a cana-de-açúcar, o engenho e todos os outros serviços que compunham esta atividade, povoaram o nosso imaginário infantil. Tenho certeza de que a maioria de nós jamais se esqueceu da cana cayana, que se cortava para ser consumida à noite, em torno de uma fogueira, onde o morador Vicente Maravilha esmeradamente contava estórias de Trancoso, menos ainda do período da moagem, quando se iniciava o corte da cana e a produção da rapadura. Durante a moagem da cana recebíamos muitas vistas: primos, parentes e amigos que vinham compartilhar conosco este período agitado, laborioso, mas, ao mesmo tempo mágico, pois nos deixou lembranças agradáveis, profundas e inesquecíveis.

        Com a venda do engenho, o plantio da cana-de-açúcar foi substituído pela intensificação do cultivo de arroz, milho, feijão e algodão – este último conhecido como “ouro branco”, pois fornecia uma alternativa econômica para aquela região, com a geração de emprego e renda para a população ali residente.

   Simultaneamente, nosso pai praticava, também, nesta pequena área agrícola, uma pecuária baseada na criação de bovinos e ovinos; atividade que complementava a renda familiar e que era realizada com extrema dificuldade, sendo a maior delas, sem dúvida, o deslocamento do gado bovino para a região Jaguaribara, levado a efeito, durante o período de estiagem.

        Tendo nascido em 1903, na cidade de Várzea Alegre, mesmo com todas as dificuldades daquela época, Seubino conseguiu cursar o 5º ano primário, o que lhe abriu caminho para que cultivasse ao longo da vida o hábito da leitura, mantendo-se sempre informado dos acontecimentos nacionais e internacionais e, em razão disso, sendo considerado por todos como um homem de conhecimento. Ressalte-se que sua existência foi enriquecida por períodos de turbulência política no Brasil, tendo acompanhado vários fatos históricos, como a ascensão de Getúlio Vargas ao Poder quando da derrubada da política do café com leite; a implantação do Estado Novo; a segunda Guerra Mundial; a Constituinte de 1946; o novo governo de Getúlio Vargas e seu suicídio; o Golpe Militar de 1964 até o ocaso deste regime. Além de espectador da política nacional, Seubino deu sua contribuição para a cidade onde residia, exercendo a vereança na Câmara Municipal de Cedro no período legislativo de 1973/1977. Entretanto, nunca foi o seu grande objetivo participar da política partidária, pois gostava mais da macropolítica, da conversa, da troca de idéias; enfim, de um bom papo.

        Abro espaço agora para enfatizar o traço mais característico de Seubino, aquele que o define por completo, como homem, cidadão, político e pai. Era humilde, paciente, pacífico e conciliador. Quem quisesse ser seu amigo, falasse de amor, da paz – e nunca de violência. Gostava de dar conselhos, principalmente para aqueles filhos de temperamento mais forte, afirmando, por diversas vezes, as máximas: “violência gera violência; quem semeia vento, colhe tempestade” e ” diz-me com quem andas, que eu direi quem tu és”. Tais frases, embora singelas, demonstram, mais uma vez, a atualidade deste homem que sempre pregou o amor e a não-violência. Neste particular, a coerência, sem  dúvida, também marcou sua vida, pois evitava aproximar-se de pessoas que falassem de armas, violência e valentia. Permanece em nossas mentes a figura de um ser que abominava tudo aquilo que atentasse contra a vida, o sossego e a paz na Terra.

        Finalizando, busco inspiração da Bíblia Sagrada para traçar seu perfil, citando Mateus, 11:29: Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.


Fortaleza/CE, 23 de Setembro de 2007


O autor, Luiz Viana Diniz, é Médico Veterinário Especialista em Avicultura - UECE. Especializado em criação e manejo de animais silvestres in-situ e ex-situ, com ênfase em clínica de aves de estimação (silvestres e exóticas). É Veterinário Ecologista, preocupado com a preservação e conservação do meio ambiente, assunto que permeia sua vida profissional, tornando-se uma filosofia de vida. Email: lvdiniz@bol.com.br


Música: Luzes Da Ribalta