Data da publicação: 23/09/2007
Inserto neste cenário, no qual o homem e a natureza desencadeiam diariamente lutas titânicas para manutenção da vida, nosso pai logo adquiriu mecanismos para enfrentar o desafio de viver naquele sertão, quente, seco e pobre. Era um homem à frente de seu tempo, pois tinha consciência de que, para obter o sustento de sua família, naquela terra inóspita, era imprescindível respeitá-la e não degradá-la. Assim, cuidava muito bem do solo, adubando-o periodicamente, evitando deixá-lo sem cobertura vegetal; não realizava desmatamento desnecessário e não permitia escavações durante o inverno, para evitar a erosão pluvial.
No entanto, a cana-de-açúcar, o engenho e todos os outros serviços que compunham esta atividade, povoaram o nosso imaginário infantil. Tenho certeza de que a maioria de nós jamais se esqueceu da cana cayana, que se cortava para ser consumida à noite, em torno de uma fogueira, onde o morador Vicente Maravilha esmeradamente contava estórias de Trancoso, menos ainda do período da moagem, quando se iniciava o corte da cana e a produção da rapadura. Durante a moagem da cana recebíamos muitas vistas: primos, parentes e amigos que vinham compartilhar conosco este período agitado, laborioso, mas, ao mesmo tempo mágico, pois nos deixou lembranças agradáveis, profundas e inesquecíveis.
Com a venda do engenho, o plantio da cana-de-açúcar foi substituído pela intensificação do cultivo de arroz, milho, feijão e algodão – este último conhecido como “ouro branco”, pois fornecia uma alternativa econômica para aquela região, com a geração de emprego e renda para a população ali residente.
Simultaneamente, nosso pai praticava, também, nesta pequena área agrícola, uma pecuária baseada na criação de bovinos e ovinos; atividade que complementava a renda familiar e que era realizada com extrema dificuldade, sendo a maior delas, sem dúvida, o deslocamento do gado bovino para a região Jaguaribara, levado a efeito, durante o período de estiagem.
Tendo nascido em 1903, na cidade de Várzea Alegre, mesmo com todas as dificuldades daquela época, Seubino conseguiu cursar o 5º ano primário, o que lhe abriu caminho para que cultivasse ao longo da vida o hábito da leitura, mantendo-se sempre informado dos acontecimentos nacionais e internacionais e, em razão disso, sendo considerado por todos como um homem de conhecimento. Ressalte-se que sua existência foi enriquecida por períodos de turbulência política no Brasil, tendo acompanhado vários fatos históricos, como a ascensão de Getúlio Vargas ao Poder quando da derrubada da política do café com leite; a implantação do Estado Novo; a segunda Guerra Mundial; a Constituinte de 1946; o novo governo de Getúlio Vargas e seu suicídio; o Golpe Militar de 1964 até o ocaso deste regime. Além de espectador da política nacional, Seubino deu sua contribuição para a cidade onde residia, exercendo a vereança na Câmara Municipal de Cedro no período legislativo de 1973/1977. Entretanto, nunca foi o seu grande objetivo participar da política partidária, pois gostava mais da macropolítica, da conversa, da troca de idéias; enfim, de um bom papo.
Abro espaço agora para enfatizar o traço mais característico de Seubino, aquele que o define por completo, como homem, cidadão, político e pai. Era humilde, paciente, pacífico e conciliador. Quem quisesse ser seu amigo, falasse de amor, da paz – e nunca de violência. Gostava de dar conselhos, principalmente para aqueles filhos de temperamento mais forte, afirmando, por diversas vezes, as máximas: “violência gera violência; quem semeia vento, colhe tempestade” e ” diz-me com quem andas, que eu direi quem tu és”. Tais frases, embora singelas, demonstram, mais uma vez, a atualidade deste homem que sempre pregou o amor e a não-violência. Neste particular, a coerência, sem dúvida, também marcou sua vida, pois evitava aproximar-se de pessoas que falassem de armas, violência e valentia. Permanece em nossas mentes a figura de um ser que abominava tudo aquilo que atentasse contra a vida, o sossego e a paz na Terra.
Finalizando, busco inspiração da Bíblia Sagrada para traçar seu perfil, citando Mateus, 11:29: Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.
Fortaleza/CE,
23 de Setembro de 2007
O autor, Luiz Viana Diniz, é Médico Veterinário Especialista em
Avicultura - UECE. Especializado em criação e manejo de animais silvestres
in-situ e ex-situ, com ênfase em clínica de aves de estimação (silvestres e
exóticas). É Veterinário Ecologista, preocupado com a preservação e conservação
do meio ambiente, assunto que permeia sua vida profissional, tornando-se uma
filosofia de vida. Email: lvdiniz@bol.com.br
