Data da publicação: 28/01/2006
Autores: Francisca Alves Xavier (Geracina) e José Caubi Diniz
A História dos Moraes, em muitos tópicos, se confunde com os dados de registro da criação de Várzea-Alegre, cidade do Centro-Sul do Ceará. Na história de edificação desta cidade constam os nomes de alguns doadores das terras para a construção da Igreja de São Raimundo Nonato (cuja data de comemoração religiosa a este padroeiro acontece em 31 de agosto) e da execução dos principais arruamentos do povoado. Esses assentamentos datam de 1853, tempo em que a Família Brito já residia naqueles sertões nordestinos. Dentre eles: Joaquim Alves Bezerra e a esposa Antônia Corrêa Lima; João Alves Bezerra e Joaquina Francisca de Almeida; José Bezerra da Costa e a esposa Isabel Pereira de Moraes; e Antônio Duarte Bezerra.
Sobre Isabel Pereira de Moraes (também conhecida por “Biluca”), não se sabe ao certo: talvez fosse a mãe - talvez fosse irmã - da mulher de Vitorino Brito; de qualquer forma, avoenga - isto é, procedente de avós, herdado de avós, relativo a avó - dos autores deste artigo. Ela era, à época, uma das pessoas mais aquinhoadas entre os proprietários e doadores daqueles terrenos. Os Bezerra, os Costa, os Menezes, os Morais e os Moraes também são nossos parentes consangüíneos (que têm a mesma origem familiar). Naquela época, era comum usar o nome dos avós, tios e pais para batizar os filhos, assim homenageando seus ascendentes. É bem possível que a Isabel Pereira de Moraes, aqui referida, seja um desses casos, ainda tão comuns nos dias atuais.
Ainda como explicação, é conveniente lembrar que o nome “Brito” era apenas uma alcunha de família. Na verdade eles eram os Morais com “i” ou os Moraes com “e”. O apelido “Brito” era geralmente mais usado em nomes masculinos. E, raras vezes, era essa alcunha conferida aos nomes das mulheres.
Da esquerda para a direita, sentados: Vicência Alves de Moraes; o casal Isabel Pereira de Moraes (Biluca) e Vitorino Alves de Menezes (Vitorino Brito) e, ao seu lado, Antônia Alves de Moraes.
Da esquerda para a direita, em pé: José Alves Moraes (Zé Brito); Clarinha Alves de Moraes (Clarinha) – que está com a mão no ombro de Vicência – ; Francisco Alves Bezerra; Vicente Alves Primo, no colo de sua mãe Leonarda Alves Primo; Senhor Primo (de bigode); Pedro Alves Moraes (Pedro Brito); Raimundo Alves de Moraes (Raimundo Brito) e Maria Cleta Alves de Moraes.

Nossos ancestrais já residiam nos sítios, trabalhando na lavoura, na área agrícola de Várzea-Alegre, que havia sido desmembrada do município de Lavras da Mangabeira. Consta da história que suas origens remontam ao Século XVII, quando na região se estabeleceram os primeiros ocupantes, oriundos de vários lugares. Não foi somente o interesse pelas riquezas auríferas o que levou essas pessoas para lá; foi, também, o desejo de se fixarem naquelas terras. Elas vinham, na sua maioria, da cidade de Lavras da Mangabeira. Sob esse aspecto, procuraram inicialmente as Serras de Iputi, dos Crioulos, da Charneca, dos Cavalos e dos Trigueiros, além de outras, cuja fama sobre a existência de jazidas as atraíam.
Os Brito se tornaram ricos fazendeiros e moravam em diversos sítios, que nós, hoje, conhecemos como: São Nicolau, Umburana, Lagoas, Panelas, Olho Dágua, Aba da Serra e Canindezinho, entre outros. Eles tiveram participação, portanto, naevolução política de Várzea-Alegre e nas mudanças de povoado à categoria de vila - fato que está devidamente registrado, com as seguintes datas: criação em10/10/1870 (embora a instalação tenha ocorrido somente em 02/03/1872); passando por algumas mudanças administrativas nos anos de 1931 e pela restauração em 1933. Esses fatos ensejaram, finalmente, a data da elevação à categoria de município, em 20 de dezembro de 1938.
Para melhor compreensão do contexto histórico, é bom lembrar que outras cidades passaram por essas mesmas transformações, como foi o caso de Lavras de Mangabeira, que foi criada em 20/05/1816 e teve a sua instalação em 09/11/1818. À semelhança de Várzea-Alegre, também foi um dos cenários desses acontecimentos. Cedro também fez parte desse cenário, ainda quando era uma grande fazenda, de propriedade do nosso “tio-bisavô”, João Cândido da Costa; e depois, já como cidade, criada, em 09/07/1920 e instalada no dia 20/10/1920.
A partir de então, o município de Várzea-Alegre ficou assim delimitado: ao Norte com Cariús e Cedro; ao Sul, com Crato e Caririaçú; a Leste, com Lavras da Mangabeira e Granjeiro e, a Oeste, com Farias Brito. Só então passou-se a ouvir os nomes dos atuais distritos e acidentes geográficos, como: Riacho Verde, Calabaço, Ibicatu, Naraniú, Canindezinho, Riachos dos Machados, da Fortuna, da Carrapeira, e de São Miguel, e as Serras do Furtado, dos Cavalos, de São Nicolau, da Pedreira de Várzea Alegre, e da Queda Dágua, entre outros.
Os presentes relatos são escritos pelo neto de Vitorino Brito, Coronel Reserva da Aeronáutica José Caubi Diniz, filho de Maria Cleta; e pela bisneta, Professora Francisca Alves Xavier (Geracina), filha de Rita Alves. Sentimo-nos envaidecidos por estarmos resgatando essa memória da família, fundamentados nos dados de pesquisas da história de Várzea-Alegre e nos depoimentos de familiares, que afortunadamente ainda retêm, bem viva, a memória de muitos desses dados históricos dos nossos ancestrais.
Com base nas regras da genealogia, o mapa – apresentado aqui apenas para melhorar a compreensão – leva-nos a imaginar que o casal Vitorino Brito e Isabel deve ter nascido ali pelos anos de 1864. Tomou-se como fator delimitador o nascimento, em 1896, de Clara Alves de Morais, a primeira filha do casal. Nessa regra de genealogia, atribuiu-se uma folga temporal regressiva de cerca de 30 anos daquela data. (Clara Alves faleceu com 68 anos, em 7 de setembro de 1964). Eles eram agricultores e moravam no Sítio São Nicolau, município de Várzea-Alegre. Isabel Morais (Biluca) faleceu em 1924 e Vitorino Brito, em 1930.
Veja o Gráfico de Vitorino Brito.
1º - Descendência de Clara Alves de Morais e Francisco Alves Bezerra. Com o casamento ela passou a se chamar Clara Alves Bezerra. Moravam no Sitio Umburana.
Veja o Gráfico de Raimundo Alves de Moraes - 1º Casamento
3º - 1. Descendência de Raimundo Alves de Moraes (Raimundo Brito), no seu segundo casamento, com Iracema Alves de Lima. Também, moraram no Sítio São Nicolau.
Veja o Gráfico de Raimundo Alves de Moraes - 2º Casamento
4º - Descendência de José Alves de Moraes (José Brito).
José Alves de Moraes (Zé Brito), com a esposa Raimunda Moraes (Mundinha) e os filhos Maria e Expedito.
5º - Descendência de Pedro Alves de Moraes. Era solteiro e faleceu em 10 de setembro de 1946. Pedro morou nas casas dos irmãos, tanto no Sítio São Nicolau quanto no Umburana.
6º - Descendência de Maria Cleta Alves de Moraes e Vicente Balbino Diniz (Seu Bino). Com o casamento, ela passou a se chamar Maria Cleta Diniz. O casal morou em Várzea-Alegre e depois fixou residência no Sitio São Nicolau.
Maria Cleta nasceu em 1906 e faleceu aos 33 anos, em 1939. Seu Bino viveu de 1903 a 1981, vindo a falecer com 78 anos. É bem possível que esta foto seja do ano de 1921, quando Maria Cleta Alves Moraes tinha 15 anos. As referências principais que nos levaram à suposição do ano da fotografia foram a presença de Isabel Moraes no retrato (sabendo-se que ela faleceu em 1924) e a jovialidade de Maria Cleta.
Neste mapa nós mostramos a genealogia da primeira filha de Antônia Alves de Moraes, (Antônia Alves Bezerra), Isabel Bezerra. E os frutos de seu casamento com João Correia Bezerra (Jota).
Mapa Izabel Bezerra
8º - Descendência de Vicência Alves de Morais e Vicente Lima. Com o casamento, ela passou a se chamar Vicência de Morais Lima. O casal morava no Sítio Panelas, perto do Sítio Umburana.
Vicência viveu 48 anos: de 1908 a 1956. Esta foto, possivelmente tirada em 1921, apresenta Vicência com seus 13 anos de idade.
Vicente Lima e a esposa Vicência de Morais Lima. Foram eles os responsáveis pela descendência no Sítio Panelas.
Veja o gráfico
Rita de Clarinha e Terezinha de Vicência dizem: “Quando muito jovens, ouvíamos muito os casos que nossas mães contavam. Diziam que quando Vicência conheceu o seu futuro esposo, Vicente, ele foi pedir sua mão em casamento a Vitorino Brito. Este, com a postura e a experiência didática de vida, perguntou-lhe: “- Você já tem casa?... E ele só pôde se casar com Vicência quando provou que havia construído a casa, localizada no Sítio Panelas, légua-e-meia distante de Várzea-Alegre”
9º - Descendência de Vitorino Alves de Oliveira (Britinho).
Ainda sem dados.
Algumas “historinhas” dos netos de Vitorino Brito, do Sítio São Nicolau.
Depois de algumas reuniões em Fortaleza, nós fomos “arrancando” de Rita Alves, aos poucos, as “historinhas” interessantes sobre nossos familiares. Ela começa a narração num linguajar pausado e cauteloso: “isso pode escrever, mas aquilo não deve constar do texto”.
Rita de Clarinha do Umburana tem boas lembranças de muitas conversas da época, contadas pela sua mãe para ela e seus irmãos. Ela conta assim a sua história:
“Meu nome completo é Rita Alves Bezerra. Nasci em 26 de março de 1926 e tenho três irmãos: Maria, Izabel e José Alves Bezerra. Sou filha de Francisco Alves Bezerra e Clara Alves Bezerra. Meus avós paternos eram João Alves Bezerra e Amélia Ernestina de Oliveira. A segunda esposa de Raimundo Brito, Bárbara de Oliveira, era irmã do pai de Rita Alves (Francisco Alves Bezerra).
Casei-me com Caetano Juracy de Caldas e tive quatro filhos. Continuamos a residir ali mesmo, no Sítio Umburana, por alguns anos. Depois morei em Cedro e, posteriormente, fixei residência em Fortaleza, onde vivo até os dias de hoje, com os meus familiares.
Minha mãe, Clara, contava que Maria Cleta morava com o tio José Brito, em Várzea-Alegre, em 1930. Um dia, Gabriel Diniz foi fazer-nos uma visita, ali na casa de José Brito, na cidade, e disse:
Maria Cleta, eu vou lhe apresentar um rapaz velho (25 anos). Quem sabe talvez dê certo um namoro e até casamento entre vocês.
Noutra ocasião em que foi visitá-los, Gabriel Diniz levou o tal rapaz, o bonito e charmoso Seu Bino. E daí nasceu o romance e, posteriormente, no ano de 1931, o casamento”.
Rita Alves é uma pessoa de fala cativante, muito calma e que se expressa num ritmo pausado, de clara e precisa comunicação. Às vezes beira a emoção, mas logo se recompõe - e volta a se concentrar nas perguntas e respostas.
“Na época, nós usávamos o cavalo como meio de transporte. Ele era equipado com selas especiais e confortáveis. E nós, mulheres, tínhamos roupas adequadas pra essas viagens: saias rodadas e longas. Nós íamos passear nas casas dos parentes, nos sítios. Íamos a Várzea-Alegre e a outros lugares bons para se passear, como os açudes, os riachos, as margens dos rios e as fazendas localizadas nas vizinhanças das nossas moradias”.
Com uma calma de causar inveja, Rita continua:
“Eu gostava muito de minha tia Maria Cleta, que era também minha madrinha de crisma. Meus estudos de alfabetização, e também os religiosos, foram iniciados em 1936, quando eles me levaram à casa onde residiam, no Sítio Umburana, em Várzea-Alegre. Ali me deram todo apoio para estudar. Fiz nessa ocasião a Primeira Comunhão. Depois eles foram morar no Sitio São Nicolau, então eu continuei meus estudos no sítio, dados por uma professora particular, arranjada por Seu Bino e Raimundo Brito: a Dona Elisa. Eu era muito incentivada aos estudos por esse casal maravilhoso: Seu Bino e minha tia Maria Cleta, que queriam que eu logo aprendesse a ler e escrever.
Tia Maria Cleta e suas irmãs, (minhas tias) Vicência e Antônia, eram pessoas bem calmas, mas as outras irmãs dela, Clara (minha mãe) e Leonarda, já não eram tão calmas assim...
Em 1938 fui estudar em Cedro, a cidade vizinha. E daí em diante a minha vida prosseguiu...
As mulheres da família Brito eram, todas, muito prendadas. Elas sabiam costurar, fazer crochê, bordados, rendas, labirintos, entre outras habilidades artísticas. Geralmente eram elas mesmas que criavam suas roupas e tinham muito orgulho em fazer seus próprios vestidos de 15 anos”.
Em outra ocasião, quem aproveitou para contar coisas guardadas na memória foi Geracina:
“Eu me sinto muito feliz com a profissão que exerço na área do ensino. Quando você, Diniz, estava servindo na Base Aérea de Fortaleza, atendeu um pedido meu e assim foi possível conseguir uma vaga no Colégio Geny Gomes. Com isso eu pude continuar os estudos e cheguei mais rápido aos postos de trabalho dessa profissão, que exerço até hoje.”
Queremos agradecer a todos aqueles que, direta ou indiretamente participaram da elaboração deste trabalho, principalmente ao Pessoal de Clara Alves: Rita Bezerra e Profa. Geracina, de Fortaleza; aos Familiares de Raimundo Brito: filhos, Profa. Socorro e Agricultor Vitorino Brito; neto, Contador José Gonçalves de Moraes (Dedé Brito), que usou as facilidades de sua própria empresa de contabilidade, em Várzea-Alegre, para agilizar as remessas desses dados da família; ao Pessoal de Maria Cleta: Func. Público do Incra, José Ivan Diniz; Capitão Reserva da Aeronáutica e Empresário Carlos Menezes Diniz, e seus filhos, Engenheiro Carlos Menezes Diniz Júnior, Bel em Ciência da Computação Carlos Henrique Grilo Diniz – que gentilmente viajaram de Natal para os sítios, a fim de fazerem fotos da região e dos nossos familiares; Familiares de Antônia Brito, em Fortaleza: Isabel Moraes (madrinha de José Diniz, um dos autores deste texto) e seus filhos: Profa. Socorro Bezerra, Empresário Francisco Elder e a neta, Geógrafa Emanoela Victor Bezerra. E por fim, agradecer à prima, Profa. aposentada Terezinha de Moraes Costa, filha de Vicência Brito, de Fortaleza, que também participou das reuniões. E também a tantos outros familiares que estamos aqui esquecendo de citar seus nomes.
Este texto foi gerado com base nas pesquisas de informações e dados da genealogia da família dos Brito, de Várzea-Alegre. Sua memória está preservada em CD, visando eternizar por mais tempo os registros, informes, gráficos e fotografias, aqui apresentados, de nossos familiares, suas casas e sítios e outros materiais pertencentes a esse legado histórico que está presente até os dias de hoje em nossas almas.
Finalizando, queremos dizer aos nossos queridos familiares que este site pertence a todos nós. Sabemos que nossa singela iniciativa ainda pode ser muito melhorada e que nos faltam todos os dados: o que aqui apresentamos está resumido e muito incompleto. Ficaríamos encantados de poder conhecer e reconstruir a história dos locais citados e dos “causos” curiosos vividos por nossos antepassados. Por isso solicitamos aos nossos queridos familiares que, se puderem, nos enviem fotos, datas ou informações com as quais possamos aprimorar esta genealogia e, assim, melhor resgatar a história da nossa família. Temos esperança de que, a partir deste site, possamos estreitar os laços que nos unem. E que estas informações, aliadas a um caloroso relacionamento afetivo, cheguem aos bisnetos dos nossos tataranetos.
Brasília, 28 de janeiro de 2006

















