Data da publicação: Dezembro de 2003
"Causos" pitorescos ocorrem, também, em Postos do Correio Aéreo Nacional (CAN).
- Sargento, temos um pequeno problema – comunicou o soldado meio sem jeito.
- O Sargento voltou-se para o rapaz, com olhar de interrogação.
- É sobre aquele cão do Brigadeiro. O pitbull, que chegou no FAB 2168, morreu. E agora, chefe.
- O Sargento balançou a cabeça em sinal de desaprovação.
- O decujus, um belo e bem cuidado animal branco, estava lá, duro que nem pedra.
- Calma, calma! Temos de pensar numa solução rápida.
Com um sorriso maroto disse: - Tenho uma idéia” Vá até o canil próximo e procure um pitbull com as características do finado, e vamos entregá-lo ao dono como se fosse o original.
E assim foi. O soldado procurou no canil, entre buldogues, cockers, chihuahuas, paulistinhas, poodles, vira-latas e achou um pitbull branco, igualzinho ao que precisava. Voltou, então, trazendo o cão-sósia.
Lá pelo meio-dia, chega o Sr. Hermenegildo, um senhor grisalho, de vastos bigodes para buscar o cão.Logo o soldado apareceu conduzindo o cão-sósia e acompanhado do mentor intelectual da farsa.
- Belo animal tem o senhor – disse o Sargento – Não nos deu trabalho algum.
O senhor Hermenegildo observou o cão, depois olhou para o chefe, para o ajudante e novamente para o cão.
É algum tipo de brincadeira, não é? Este não é de forma alguma o cão que estou esperando.
O Sargento, cara-de-pau, insistiu:
- Mas é claro que é. Meio desnorteado por causa da viagem, mas é ele sim. È o único cão que chegou hoje.
Foi à gota d´agua. O velho arregalou os olhos e explodiu numa gargalhada.
- Senhores – disse irônico – Somos testemunhas oculares de um milagre. Este cão é um Lázaro canino.
O Sargento, que sabia das coisas, entendeu logo que ele falava de ressurreição. O soldado ficou confuso.
- Não queiram me fazer de bobo. Sei muito bem que este não é o pitbull que me enviaram. Sou taxidermita profissional e o meu ofício é empalhar animais – explicou – o cão que aguardo, pertence a um Brigadeiro cliente meu que, com a recente morte do bichinho, decidiu me contratar para que eu o empalhasse.
Desmascarados, restou ao Sargento e seu jovem cúmplice, vergonhosamente, admitir que, embora com a melhor das intenções, haviam armado tudo.
Desculpa aceita, entregaram ao taxidermista os restos mortais, e o Posto do CAN ganhou uma mascote: o pitbull vivo, logo apelidado de Klone.
Uma sugestão do Sargento, é claro, que era quem sabia das coisas, ou pelo menos pensava que sabia.
Artigo publicado no Aerovisão - Jornal da Aeronáutica de Out/Dez 2003. Na capa estão essas jovens, primeiras Suboficiais da FAB - Fôrça Aérea Brasileira.

