14. A Ressurreição

Data da publicação: Dezembro de 2003

"Causos" pitorescos ocorrem, também, em Postos do Correio Aéreo Nacional (CAN).

- Sargento, temos um pequeno problema – comunicou o soldado meio sem jeito.

- O Sargento voltou-se para o rapaz, com olhar de interrogação.

- É sobre aquele cão do Brigadeiro. O pitbull, que chegou no FAB 2168, morreu. E agora, chefe.

- O Sargento balançou a cabeça em sinal de desaprovação.

- O decujus, um belo e bem cuidado animal branco, estava lá, duro que nem pedra.

- Calma, calma! Temos de pensar numa solução rápida.

Com um sorriso maroto disse: - Tenho uma idéia” Vá até o canil próximo e procure um pitbull com as características do finado, e vamos entregá-lo ao dono como se fosse o original.

E assim foi. O soldado procurou no canil, entre buldogues, cockers, chihuahuas, paulistinhas, poodles, vira-latas e achou um pitbull branco, igualzinho ao que precisava. Voltou, então, trazendo o cão-sósia.

Lá pelo meio-dia, chega o Sr. Hermenegildo, um senhor grisalho, de vastos bigodes para buscar o cão.

Logo o soldado apareceu conduzindo o cão-sósia e acompanhado do mentor intelectual da farsa.

- Belo animal tem o senhor – disse o Sargento – Não nos deu trabalho algum.

O senhor Hermenegildo observou o cão, depois olhou para o chefe, para o ajudante e novamente para o cão.

É algum tipo de brincadeira, não é? Este não é de forma alguma o cão que estou esperando.

O Sargento, cara-de-pau, insistiu:

- Mas é claro que é. Meio desnorteado por causa da viagem, mas é ele sim. È o único cão que chegou hoje.

Foi à gota d´agua. O velho arregalou os olhos e explodiu numa gargalhada.

- Senhores – disse irônico – Somos testemunhas oculares de um milagre. Este cão é um Lázaro canino.

O Sargento, que sabia das coisas, entendeu logo que ele falava de ressurreição. O soldado ficou confuso.

- Não queiram me fazer de bobo. Sei muito bem que este não é o pitbull que me enviaram. Sou taxidermita profissional e o meu ofício é empalhar animais – explicou – o cão que aguardo, pertence a um Brigadeiro cliente meu que, com a recente morte do bichinho, decidiu me contratar para que eu o empalhasse.

Desmascarados, restou ao Sargento e seu jovem cúmplice, vergonhosamente, admitir que, embora com a melhor das intenções, haviam armado tudo.

Desculpa aceita, entregaram ao taxidermista os restos mortais, e o Posto do CAN ganhou uma mascote: o pitbull vivo, logo apelidado de Klone.

Uma sugestão do Sargento, é claro, que era quem sabia das coisas, ou pelo menos pensava que sabia.

Artigo publicado no Aerovisão - Jornal da Aeronáutica de Out/Dez 2003. Na capa estão essas jovens, primeiras Suboficiais da FAB - Fôrça Aérea Brasileira.

Adaptação:
Coronel Reserva da Aeronáutica
José Caubi Diniz

Música: The Platters - Only You 1955