8. Natal em Boston

Data da publicação: 16/12/2002

Correndo e saltando dizia: O Papai Noel estava estragado.
Dados autobiográficos de Mariana e Felipe.

Numa das minhas viagens, com familiares, ia também o pequeno Felipe, meu neto, com dois anos e sete meses, e que viajava acompanhado dos pais. Fomos passar o Natal de 1998 em Boston (EUA), com nossa filha Síglia Diniz, a neta Mariana (10) e o genro Joseph Piraino. O casal trabalhava e residia naquela cidade americana havia algum tempo.

Natal em Boston é, quase sempre, um acontecimento festivo, com luzes, musicais alusivos à magna data e a típica e singular presença da nevasca da região. Felipe e Mariana, afeitos àqueles festejos, demonstravam querer participar, literalmente, de tudo aquilo.

Na noite de 20 para 21 de dezembro, Joseph resolveu levá-los às comemorações do Natal, com Papai Noel, na empresa em que trabalhava. As duas crianças logo se juntaram a quantas outras que para lá acorriam. Formavam um grupo de muita garra, integrado por crianças bem agasalhadas, em que predominava um grande colorido.

De repente, surge a idéia da formação de uma fila de recepção ao Papai Noel. Era uma fila movimentada, marcada pelo barulho e peraltice da petizada. Na outra extremidade, postava-se o “velhinho de barba branca”, um profissional, como a regra, com pouco tempo para dialogar com a grande quantidade de crianças que buscavam sua atenção.

Perfilados, Mariana e Felipe, irrequietos, acompanhavam todo aquele alvoroço e alegrias típicas do momento. No mesmo salão, um pouco mais afastado, Joseph conversava alegremente com os companheiros de trabalho.

Em dado instante, o encontro dos três: Felipe, Mariana e Papai Noel. Parecia que tudo corria às mil maravilhas, pois o “velhinho”, sem muito esforço, falava em inglês as mesmas expressões, quase sempre repetidas para todas as crianças. Percebeu, contudo, quando dialogava com o pequeno Felipe, intervinha Mariana que, com prontas respostas, intermediava a conversação, fazendo a tradução do inglês para o português e vice-versa, de modo a permitir a compreensão do que falavam Felipe e Papai Noel. Pego de surpresa, o “bom velhinho” logo se apercebeu de que sua missão, naquele momento, estava fugindo à rotina dos seus trabalhos. Surpreso, mas comedido, parou a fila, passando a dedicar maior tempo ao diálogo travado, envolvendo-se completamente na conversação. (Foto de Encontro de Papai Noel com Felipe e Mariana)

O fato evidencia a diversidade cultural, facilmente perceptível na natureza das ações de um Papai Noel ou de um “Coelhinho da Páscoa”. É exemplar o profissionalismo com que o Papai Noel americano cuida do seu mister, em que a cronometragem do tempo, o modelo padrão de atendimento, a pontualidade e a entrega de presentes se destacam. Em nossa cultura, nosso “bom velhinho” pega a criança, afaga-a no colo, abraça-a e beija, carinhosamente. Sua ação é direcionada no sentido de promover o aconchego de todos, criando uma atmosfera bem familiar, com a documentação do momento mágico por meio de fotografias e muito afeto.

A diferença entre o Papei Noel de Boston e o nosso, talvez, seja a causa do grande espanto do pequeno Felipe. Seus sentimentos são melhor revelados quando, ao regressar para casa, assim se expressou para os seus familiares: veio correndo e pulando... e disse: “ — Mãe, mãe..., o Papai Noel estava estragado!”. É, justamente aí que reside a diferença cultural entre “o velhinho de barba branca” dos ianques, marcado por atuação profissional, e as atividades exercitadas pelo nosso Papai Noel que, quase sempre, é uma pessoa comum, em atividade improvisada.


Boston, Dezembro de 1998.

Música: Medley- Happy Xmas (War Is over)-Give Peace a Change (Reprise) - John Lenon